Srs. Aviadores,

Nos idos de 1996, ainda com 17 anos, comecei a voar planadores em Itápolis, pretendendo assim, conquistar minhas asas e seguir minha carreira como piloto.

Naquela época, a situação financeira era difícil (não que agora seja fácil), e o voo a vela era realmente um step para minha carreira. Mas me apaixonei pelo voo sem motor, os desafios, as insígnias, os campeonatos, enfim. Com o decorrer da profissão, as coisas aconteceram rápido, e com a ajuda de muitos amigos, logo estava no multimotor, IFR, e em 2001 na TAM (ontem 4/12, completei 10 anos de TAM, felicidade em dose dupla, também pelo voo de sábado).

Com tudo isso acontecendo, família, casamento, filhos, o Voo a Vela ficou lá, hibernado. Há pouco mais de um ano, decidi voltar a voar planadores, agora sim, como um esporte (fabuloso), sem a pressão de ter que progredir na carreira. Resolvi perseguir meu C de Prata, sonho que havia ficado lá no final dos anos 90.

Voltei a voar em Itápolis, onde me formei, porém com o Voo a Vela praticamente parado por lá, está cada vez mais difícil conseguir um rebocador, alguém pra correr asa, empurrar até a cabeceira, enfim, um perrengue a cada voo. Com minha participação no Planador Brasil fiquei sabendo da retomada do Aeroclube de Bebedouro. Entrei em contato com o Angelo, e fui muito bem atendido. Pessoal engrenado, Aeroclube com tudo em cima, equipe, rebocador, planadores, carreta, meteorologia fantástica, pensei, é lá mesmo, até pelo meu local de moradia atual, Ribeirão Preto.

03/12/2011. Cheguei cedo em Bebedouro para meu primeiro voo no QQ do Aeroclube, e tanto o Angelo quanto o Peter me questionaram sobre o C de Prata. "Ainda não tenho" respondi. A resposta foi uníssona: "Então você fará hoje". A meteorologia estava boa (não perfeita, mas boa). Definimos virar na Faz Brumado, a cerca de 53 km de SDBB. O Peter me brifou e até me levou em seu carro a uma pista próxima que poderia servir de apoio, pista que não constava nos database (nova, mas pistão). Obrigado Peter!! Esses 50 km sempre foram um problema pra mim, pois como Itápolis nunca teve carreta, pousar fora não era uma opção, o que limitava muito nossos voos. Cinco horas, mil metros, isso eu já tinha, mas sair do cone pra mim era um barreira. Só com o aval de todos do Aeroclube de Bebedouro é que consegui superar isso.

Decolagem por volta das 11:50 local (10:50 horário solar. Já mudei meu relógio de bordo, viu Navarro). Cerca de 550 metros no reboque, desliguei e engrenei numa térmica próximo a pista, me esforçando ao máximo para centrar bem. Ainda com as bases baixas (para os meus nervos), com cerca de 850/900 m, resolvi largar e transferi para a pista citada pelo Peter.

Fui progredindo relativamente rápido, pois a frequência das térmicas era boa e os cúmulos balizavam bem o caminho, apesar do vendo que fazia com que as térmicas derivassem bastante. Logo estava no cone de Barretos, passando antes disso por um pequeno trecho sem alternados (próximo a Colina). Cheguei até a eleger um arado lindo como alternado.

Cerca de 1:30 de voo e lá estava Brumado, tirei uma foto, gravei um pequeno vídeo e virei. Parecia que o ponto do GPS não batia com a localização da pista. Algo estava errado. Apesar da vontade de aproar Bebedouro, decidi voltar e entrar um pouco mais no Setor FAI do GPS, só pra garantir. Já nesse ponto, o paraquedas havia descido bastante, e estava com as costas diretamente no anteparo traseiro, com um ressalto da tampa de inspeção. Incomodava muito. Achei que iria complicar minhas 5 horas, mas deu uma adormecida, e consegui continuar. Cheguei a desconectar o paraquedas para tentar puxa-lo para cima, mas foi em vão. Fica a lição pra sempre entrar antes no planador e se ajeitar bem, ficar um pouco lá dentro, enfim, fazer um tempo de nacele.

A volta eu nem vi passar. Como a base havia subido um pouco de as térmicas estavam bem fortes (com picos de 4 m/s), além do vento de cauda, voltei para o cone de Bebedouro, explorando um pouco mais o Leste. Nesse ponto mais ou menos atingi os 1800 m, conseguindo o ganho necessário para a insígnia. Mas ainda estava com cerca de 3 horas de voo e precisava enrolar para chegar nas 5 horas. Resolvi aproar Pitangueiras Faz. Acabei saindo novamente do cone, e nessas alturas comecei a cismar que as térmicas estavam acabando. Realmente as nuvens deram uma esfiapada e começou a ficar azul na proa de Bebedouro. Aproei uma nuvem ainda me afastando de Bebedouro e olhei pra pista da Fazenda lá embaixo, imaginando o quanto teria que andar pra achar um telefone, porque ali provavelmente não pegaria sinal de celular. Consegui subir um pouco e o caminho para Bebedouro começou a ficar promissor denovo. Voltei, e assim que cheguei no cone comecei a enrolar novamente. Ainda faltava algum tempo pras 5 horas.

Fui voando pra Bebedouro, abri um pouco mais para o sul, sob uma estrada de nuvens, fui até Taquaral. Voltei e ainda haviam térmicas, mas como minhas costas voltaram a incomodar, decidi pousar. Sobre SDBB simplesmente não conseguia descer, ainda abri um pouco mais para sudoeste, afastei alguns quilômetros e voltei. Daí já estava querendo 5:30 pra garantir. Pensei em ficar até 6 horas, mas realmente não dava mais. Pousei e fui recebido pelo Angelo, e posteriormente pelos demais amigos do Aeroclube de Bebedouro.

Missão cumprida, baixei o voo no Seeyou do Aeroclube, e upload pro OLC. Agora é enviar toda a papelada para a FBVV e aguardar a aprovação do voo. Independente do resultado, estou muito feliz por essa meta pessoal alcançada.

Não tenho palavras para agradecer a hospitalidade e clima familiar encontrado em Bebedouro. O lugar é fantástico, meteorologia, estrutura, hangares... e perto de casa.

Um grande abraço a todos, e desculpem o texto extenso, mas é que queria compartilhar esses momentos com todos os amigos aqui da PB.

Leandro Jamarco