Terça fiz 3.400km

Bom, primeiramente gostaria de agradecer a todos que torceram e também a todas as palavras de apoio e incentivo após meu voo de terça-feira. Muito obrigado a todos!
 
No dia anterior eu estava em Belém (PA), e após 6 dias de voo, com apenas uma noite em casa, tinha decidido ir a Bebedouro fazer um voo de QQ. Após saber da minha pretensão, me liga o Peter Volf, dizendo que eu iria fazer os 300 km, porque a meteoro estava ótima (o que eu já estava acompanhando também). Me passou uma rota muito interessante, que era Bebedouro-Brumado-Ponto Virtual (Estrada Matão-AAQ)-Bebedouro. Aceitei o desafio e comecei a trabalhar com essa possibilidade, mas ainda sem acreditar muito, com os dias mais curtos que já estão. 300km, média de 50/h, precisaria de 6 horas. As 23:30, saí do hotel para o aeroporto. Consegui dormir umas duas horas no máximo.
 
Decolagem as 00:30 com destino a São Paulo (Guarulhos) e cerca de 03:20 de voo. Nessa hora pensando no voo que iria fazer, resolvi inverter a prova, pois queria fazer a perna mais longa (SDBB-Ponto Virtual-Brumado-SDBB) no melhor horário e o retorno para Bebedouro com o vento de cauda, apesar do vento de través previsto para o voo todo. Pouso em GRU as 03:50. Peguei um ônibus da empresa as 04:30 para o aeroporto de Congonhas, de onde sairia o primeiro voo do dia para Ribeirão Preto as 06:30. Checkin feito, embarque e decolagem para RAO as 06:40, com pouso as 07:30. Passada rápida em casa, nem vi a família, a esposa havia saído para deixar o meu filho mais velho (3 anos) na escola. Estrada rumo a Bebedouro onde cheguei por volta das 09:00.
 
Com ajuda do Marcos, tiramos o QQ, iniciamos a preparação e uma rápida limpeza. Ultima checagem na meteoro, e-mail para os amigos, e com a chegada do nosso rebocador Max, fomos para a cabeceira. O dia estava totalmente azul, e o sol já estava bem forte. Ainda com o céu azul, 10:45 estava dentro do planador, na cabeceira, aguardando o momento exato para decolar. Não queria vir pro chão logo de cara. Mas nada estourava, exceto no setor Leste, meio longe de SDBB.
 
As 11:00 horas decidi que não dava para esperar mais, era vai-ou-racha. Decolamos, o Max me deixou do lado certo para dar a largada logo de cara. Bloqueio da pista e proa da cidade. Imaginei, já vai ter alguma coisa, só não está ainda chegando na altura de condensar.  Fiquei procurando por possíveis gatilhos. Ventava razoavelmente forte. E comecei a pegar umas bolhas, zerinhos, chegava nos 750 m acabava. Fui pulando para os arados depois da cidade, e o mesmo cenário, 750/800m acabava. Próximo arado (qual o gatilho?). O Vento de través como esperado. Uns 20 km fora de Bebedouro, já avistava os primeiros cumulos se formando na rota. Minha altura ficava entre 500 e 900. Até aí mccready 0, decidi que quando chegasse nos cumulos aumentaria gradativamente.
 
Nos primeiros cúmulos não consegui chegar na base, ficava muito fraca a térmica e eu seguia pro próximo. Passei o través de Jaboticabal e prossegui bem a partir dai, aumentado o mccready pra 1 e depois 1,5. Passando Matão, tinha descido para uns 900 metros, como estava apoiado pela pista da cidade, e não peguei nada nos Cumulus que procurei. O vento forte de través dificultava encontrar as térmicas quando se estava na faixa intermediária, longe das nuvens e dos gatilhos. Foi quando vi um poeirão subindo de um arado a minha esquerda, abri quase 90 graus, mais funcionou, subi bem rápido e segui em direção ao ponto, bem perto da base, queria poder voltar para Matão qualquer coisa. Mas alí, naquele ponto, as coisas estavam funcionando muito bem, estrada de nuvens até o ponto e boa parte do retorno até Matão, térmicas de 3 a 4 m/s com alguns picos maiores. Vi minha média aumentar para cerca de 58 km/h e pensei, vou chegar cedo na fazenda Brumado, vai dar...
 
O retorno foi tranquilo até próximo a Jaboticabal. Ali estava com Mccready 2. Comecei a pegar nada mais forte que isso, e como ainda tinha altura, fui delfinando e não girava. Través de Jaboticabal avistei alguns grandes Cumulus na proa de Bebedouro, sombreando uma grande área. Pensei, tem a sombra, mas eles estavam escuros e imaginei que me sugariam para a base. Fui deixando Jaboticabal pra trás com essa certeza. Abri para a esquerda para atravessá-los no sentido do comprimento, maximizando minhas chances de encontrar as térmicas. Mas nada, sob eles só sobra e no máximo zerinhos. Atravessei a sombra e entrei em área com sol novamente. Fui na proa do primeiro arado que vi, tratores trabalhando, vento, gatilhos não faltavam. Fiquei a 800 metros e não chegava mais nem a Jaboticabal, nem Bebedouro. Mas só zerinho, meio, meio pra baixo. Falei que coisa, com esse sol nesse arado e nada de térmica. Provavelmente a sombra havia passado por ali e matado a térmica. Fiquei esperando e de repente, surgiu a térmica de 1,5 a 2 m/s. Pensei comigo, “de volta ao jogo”. Quando sai na proa de Bebedouro, vi aqueles Cumulus gigantes que eu havia confiado se desfazendo. Mais um aprendizado. Aqui já desanimei bastante, pois minha média que vinha sendo muito boa, caiu bem, e as térmicas haviam ficado bem mais fracas. Meu receio de o dia acabar cedo voltara.
 
Bloqueio de Bebedouro bem alto, alguns cumulus na proa de Barretos, próximos a Colina. Eles já não funcionavam como antes. Subi até a base e quando sai pra Barretos vi um buraco azul bem grande e cumulus só depois de Barretos. Ai eu pensei, se está assim agora, na volta eu não atravesso. Decidi então fazer a maior quilometragem possível me mantendo no cone de Bebedouro.  Fiz 180 e voltei pros cumulus, subi e abri pra esquerda, sentido Terra Roxa. Aproveitei e treinei um planeio final para Bebedouro. No caminho, algumas ascendentes, já no azul. Dava pra estivar mais o tempo de voo, mas isso já não interessava mais. Quilometros também não faria mais, então vim pra pouso.

Da prova completei 222,6 km dos 302 km previstos, com média de 56 km/h. Na OLC foram 286,4 km com média de 60,5 km/h (terceiro melhor voo do dia de um total de 65 no mundo!!! de Kw-1!!! jamais pensei ser possível).
 
Como disse no e-mail anterior, o cansaço, o sono, e a fome me fizeram desistir talvez ainda com alguma chance. Não aguentaria terminar o dia e entrar na noite no arado. Mas como não era campeonato, não quis estragar o melhor voo que já tinha feito, e tentar novamente em outra oportunidade.
 
Gostaria de citar que nesse voo vi quase tudo que já aprendi sobre voo de distancia, na prática. Gatilhos, voo no azul, cumulus, térmicas fortes, fracas, estradas de nuvens, mccready, voo do golfinho, divisão da altura em três, melhor banda das térmicas. Foi minha maior navegação. Devo isso principalmente ao livro do Batata (Moderno voo de distancia), à excelente palestra com o Henrique Navarro em Bebedouro (obrigado mestre!), e ao Peter Volf, que me incentivou nessa tentativa (e tem incentivado desde o C de Prata). Agradecimentos especiais a vocês.
 
Desculpem o texto longo, é que quis detalhar ao máximo, para que os novatos (ainda mais que eu), possam ter uma ideia de como é desafiador e emocionante esse nosso esporte.
 
Abraços,
 
Leandro Jamarco